Chuvas extremas e produção desigual do espaço urbano: notas sobre o ocorrido na cidade de Juiz de Fora – MG

Prof. Wagner Batella (UFJF)

A proposta deste texto é compartilhar os fatos recentes relacionados às chuvas extremas na cidade de Juiz de Fora com os pesquisadores do INCT – Rede de Pesquisadores sobre Cidades Médias, e com a comunidade científica interessada na temática urbana.

Juiz de Fora localiza-se na Zona da Mata mineira, no Sudeste brasileiro, e ocupa posição estratégica entre três das maiores metrópoles nacionais: Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo. Essa posição consolidou a cidade como nó logístico relevante, articulado por rodovias estruturantes como a BR-040 e por redes históricas de circulação ferroviária e industrial. Estimativas do IBGE apontam que a população atual do município é de 567.730 habitantes.

Do ponto de vista geomorfológico, a cidade insere-se no domínio dos “mares de morros”, classificação proposta por Aziz Ab’Sáber (1966) para designar áreas de relevo marcado por morros arredondados, com vertentes convexas e dissecação intensa. Trata-se de um compartimento morfoclimático marcado por forte declividade, solos suscetíveis à erosão e elevada vulnerabilidade a processos gravitacionais, especialmente sob eventos pluviométricos extremos.

Juiz de Fora desempenha funções típicas de cidade média: concentra comércio atacadista e varejista, serviços especializados de saúde e educação superior, atividades financeiras e funções administrativas que extrapolam seus limites municipais, desempenhando claros papéis de intermediação em diversas escalas. Sua área de influência estende-se por municípios da Zona da Mata mineira, região central de Minas Gerais e alcança porções do estado do Rio de Janeiro, reforçando seu papel como centro regional articulador. Esse perfil – uma expressiva centralidade funcional combinada com um relevo estruturalmente frágil – constitui o pano de fundo para compreender os eventos ocorridos nesta semana.

 

Figura 01: Principais vias estruturantes da cidade de Juiz de Fora – Mg Fonte: Machado e Caramez, 2025.

Do ponto de vista de sua formação urbana, a história de Juiz de Fora está intrinsecamente vinculada à implantação e à sucessiva reconfiguração de seus eixos viários estruturantes (Figura 01). Como destacado por Machado e Caramez (2025), o Caminho Novo, aberto no período colonial como alternativa estratégica ao Caminho Velho, inseriu a região nas rotas de circulação entre as áreas mineradoras e o porto do Rio de Janeiro, estabelecendo as bases territoriais da futura ocupação. Posteriormente, a Estrada do Paraibuna consolidou o papel do vale do rio Paraibuna como eixo de articulação regional, favorecendo a fixação de atividades econômicas e a nucleação de moradias nas proximidades do curso d’água. Já a União Indústria, construída no século XIX sob padrões técnicos mais avançados, representou uma inflexão decisiva ao integrar de maneira mais eficiente Minas Gerais ao Rio de Janeiro, dinamizando fluxos mercantis, estimulando investimentos e reforçando a centralidade local. Esses três sistemas viários, em momentos históricos distintos, não apenas organizaram a circulação, mas estruturaram o próprio sítio urbano, orientando a ocupação do vale do rio Paraibuna, condicionando a localização da área central e conferindo a Juiz de Fora sua potencialidade logística e regional desde a origem.

O processo de formação inicial da cidade ocorre a partir da margem direita do Rio Paraibuna, numa estrutura de “espinha de peixe” (Machado; Caramez, 2025), na qual a Estrada do Rio Paraibuna, atual avenida Rio Branco, funcionou como eixo longitudinal estruturante — a “espinha dorsal” — concentrando os primeiros núcleos de ocupação, as atividades econômicas e a área central. A partir desse eixo, as vias secundárias avançaram transversalmente pelas encostas e vales afluentes, configurando as “ramificações” que se adaptaram à topografia acidentada dos mares de morros. Nesse arranjo, o Morro do Cristo destaca-se como marco geomorfológico e simbólico: além de elemento de referência paisagística e visual, sua vertente condicionou a expansão urbana em direção às áreas mais elevadas, contribuindo para a diferenciação socioespacial associada às cotas altimétricas. A margem esquerda do Rio Paraibuna passou por um processo gradual de transformação ao longo do século XIX, partindo de núcleos iniciais de ocupação até configurar-se como um espaço intensamente urbanizado atualmente, com forte presença de domicílios edificados em elevados percentuais de declividade (Menon Júnio; Zaidan, 2016). Ao longo do século XX, o crescimento urbano ocorreu sob forte pressão demográfica e limitada política habitacional estruturada, produzindo um padrão de expansão marcado pela ocupação de encostas e áreas suscetíveis a processos erosivos e deslizamentos. A cidade cresceu “adaptando-se” ao relevo, mas também tensionando seus limites físicos.

Dessa forma, é possível afirmar que o desenho urbano resultou da combinação entre condicionantes naturais e processos históricos de ocupação, nos quais o relevo não apenas orientou a forma da cidade, bem como influenciou a distribuição de infraestrutura, centralidades e padrões residenciais.

A relação dessa formação e os impactos dos eventos extremos ocorridos em Juiz de Fora, nesta última semana do mês de fevereiro, nos leva a retomar Sposito (2003, p.295), ao afirmar que “a cidade, resultado maior da capacidade social de transformar o espaço, não deixa, em função disso, de ser parte desse espaço e de estar submetida às dinâmicas e processos da natureza”.

Foto 01: Escorregamento de massa no bairro Linhares, margem esquerda do Paraibuna – 26/02/2026 Autor: Wagner Batella

Nesta semana, Juiz de Fora foi atingida por episódios de chuvas intensas e concentradas, características de eventos extremos cada vez mais frequentes no contexto das mudanças climáticas. Em poucas horas, o volume precipitado superou a capacidade de infiltração do solo e de escoamento da rede de drenagem urbana, provocando alagamentos, transbordamentos de cursos d’água e múltiplos deslizamentos de encosta (figuras 1, 2, 3 e 4). A intensidade da precipitação (que superou o acumulado de 750mm, enquanto a média histórica para o mês de fevereiro é de 170mm) combinada à topografia acidentada típica do domínio dos mares de morros, criou condições propícias para movimentos de massa, especialmente em áreas com elevada declividade e ocupação densa.

Foto 02: Escorregamento de massa no Morro do Cristo, Prolongamento da Rua Halfeld, área central. Fonte: Estado de Minas. Disponível em: https://encurtador.com.br/xiir
Foto 03: Alagamento em rua do bairro Vitorino Braga, margem esquerda do Paraibuna – 26/02/2026 Autor: Wagner Batella
Foto 04: Alagamento na Garganta do Dilermando, Av. Rio Branco, área central – 26/02/2026 Autor: Wagner Batella

O relevo de Juiz de Fora, marcado por vertentes convexas e vales encaixados, favorece a rápida concentração do escoamento superficial. Quando esse processo ocorre sobre superfícies impermeabilizadas ou em encostas com cobertura vegetal suprimida, o resultado é o aumento da erosão. Assim, a chuva extrema não atuou isoladamente: ela incidiu sobre um território historicamente tensionado por processos de urbanização que ampliaram a exposição ao risco.

Mapa 1.

Esse quadro torna-se ainda mais preocupante quando se considera que Juiz de Fora figura entre os municípios brasileiros com maior contingente populacional residente em áreas classificadas como de potencial risco geológico e hidrológico, são mais de 130 mil pessoas vivendo em condições vulneráveis. Ou seja, trata-se de uma cidade em que parcela significativa da população vive em encostas suscetíveis a deslizamentos ou em fundos de vale sujeitos a inundações (Mapa 01 e Mapa 02). O evento desta semana, portanto, não apenas evidenciou a força do fenômeno climático, mas ativou uma vulnerabilidade estrutural já instalada no tecido urbano.

Mapa 2.

A compreensão dos impactos provocados pelas chuvas desta semana exige ir além da descrição do evento meteorológico, entendendo que o risco que se materializou em Juiz de Fora não pode ser interpretado como fenômeno “natural”: ele é socialmente produzido, territorialmente distribuído e politicamente mediado.

A cidade expandiu-se sobre um relevo de vertentes íngremes e fundos de vale estreitos, no entanto, a forma dessa expansão não foi homogênea. O mercado fundiário, associado à ausência histórica de políticas habitacionais robustas, direcionou parcelas significativas da população de baixa renda para áreas ambientalmente frágeis, onde o valor da terra era reduzido justamente em razão da declividade acentuada e da instabilidade geotécnica. Consolidou-se, assim, um padrão de urbanização periférica marcado pela autoconstrução, pela precariedade de infraestrutura e pela insuficiência de drenagem. Tais características são predominantes na porção leste da cidade.

Nas vertentes do Morro do Cristo, nas proximidades da área central, observa-se também ocupação em encostas, mas com perfil socioeconômico distinto. Trata-se, em grande medida, de áreas habitadas por segmentos de classe média, com maior capacidade de investimento privado em obras de contenção, regularização fundiária consolidada e acesso mais célere a serviços públicos e seguros patrimoniais. Ainda que tenham ocorrido deslizamentos e danos materiais, os efeitos foram relativamente mitigados pela presença de infraestrutura mais estruturada e por maior capacidade de resposta.

O contraste torna-se evidente quando se analisa a parte leste da cidade, especialmente nos bairros Linhares, Três Moinhos, Bom Clima e Jardim Burnier. Nessas áreas, a ocupação densa de encostas íngremes, muitas vezes resultante de processos de autoconstrução e parcelamento informal do solo, combina-se à deficiência histórica de investimentos públicos em drenagem, estabilização de taludes e ordenamento territorial. Foi ali que se concentraram os danos mais severos, incluindo o maior número de vítimas fatais. A chuva intensa atuou como gatilho, mas a vulnerabilidade já estava estruturalmente instalada.

Essa distribuição desigual dos impactos revela que o desastre não é socialmente neutro. Ele atinge de maneira desproporcional populações negras e de baixa renda (Mapa 03 e Mapa 04), historicamente excluídas do acesso à terra urbanizada e às políticas públicas de infraestrutura. A segregação socioespacial, que organiza a cidade segundo a lógica da renda e da valorização imobiliária, também organiza a exposição ao risco. Em outras palavras, o risco é seletivo porque a produção do espaço é desigual.

Mapa 3.
Mapa 4.

O que se observa, portanto, é a materialização de um padrão estrutural: áreas mais valorizadas contam com maior densidade técnica e institucional de proteção; áreas periféricas e populares concentram precariedade, informalidade e menor capacidade de mitigação. O evento extremo explicitou essa geografia da vulnerabilidade. A chuva foi generalizada, mas seus efeitos foram profundamente diferenciados, revelando a íntima conexão entre relevo, urbanização e desigualdade social.

Em Juiz de Fora, como em tantas cidades médias brasileiras, o desastre evidencia que a questão central não reside apenas na intensidade do fenômeno climático, mas na forma histórica como o território urbano foi produzido. Enquanto persistirem padrões de exclusão no acesso à terra e na distribuição de infraestrutura, eventos extremos continuarão a se converter em tragédias socialmente seletivas.

Referências bibliográficas:

AB’SABER, Aziz Nacib. Domínio dos “mares de morros” no Brasil. Geomorfologia, n. 2, p. 1-9, 1966.

MACHADO, Pedro José de Oliveira; CARAMEZ, Luciano Alves Soares. Juiz de Fora do século XIX: formas urbanas de uma cidade no meio do caminho. Revista de Geografia, v. 15, p. 325-347, 2025.

MENON JÚNIOR, Waltencir; ZAIDAN, Ricardo Tavares. Conflitos de uso e ocupação da terra na bacia hidrográfica do Córrego Yung (Juiz de Fora-MG) com a legislação de parcelamento do solo e sua evolução entre os anos 1968 e 2010. Revista Formação (Online) Vol. 3. N. 3., mai-ago/2016. p. 217-247.

Sposito, Maria Encarnação Beltrão. O embate entre as questões ambientais e sociais no urbano. In.: Carlos, A.F.A.; Lemos, A.I.G. (Org) Dilemas Urbanos: novas abordagens sobre a cidade. São Paulo: Editora Contexto, 2003. p. 295-298.

 

*Agradeço ao mestrando Natã Morinigo de Sousa (UFJF) pela elaboração dos mapas.

 

Wagner Batella é Doutor em Geografia pela UNESP. Professor Associado da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFMG), Bolsista Produtividade em Pesquisa do CNPq e Coordenador do Núcleo UFJF do INCT/ReCiMe – Rede de Pesquisadores sobre Cidades Médias.