Coordenadora: Ève Anne Bühler
E-mail: eve.buhler@igeo.ufrj.br
EIXOS TEMÁTICOS
Equipe envolvida (docentes)
Mirlei Fachini Vicente Pereira, Maico Eduardo Dias Dias, Sergio Aparecido Nabarro, Dimas Peixinho, William Ferreira da Silva, Denise Elias, Ève Anne Bühler, Maria José Rodrigues.
Formulação do problema
Nota-se: trata-se de um ponto de partida, que poderá ser revisado conforme interesses e engajamentos dos pesquisadores envolvidos com o tema.
A literatura sobre cidades e regiões do agronegócio tem demonstrado como a expansão do agronegócio globalizado no Brasil reestruturou profundamente o território. Esse processo, ancorado na reestruturação produtiva da agropecuária, consolidou um uso corporativo do território, no qual as cidades médias e de pequeno porte passaram a exercer papéis centrais.
Esses centros urbanos emergiram como nós fundamentais para a gestão local e regional do agronegócio, abrigando desde indústrias processadoras e lojas de insumos até serviços financeiros especializados e a residência de trabalhadores rurais, em um fenômeno intensificado de interação campo-cidade.
A especialização produtiva em um número reduzido de commodities (soja, milho, cana) promovia a oferta de um consumo produtivo que, não raro, sobrepunha-se ao consumo consumptivo dos citadinos, redefinindo a hierarquia urbana e as relações regionais em áreas como o MATOPIBA e o Centro-Oeste e promovendo, internamente, a reestruturação e fragmentação socioespacial das cidades.
Entretanto, dinâmicas mais recentes, que se adensam a partir de meados da década passada, apontam para uma possível inflexão ou aceleração desses processos, remanejando a relação entre agronegócio, cidades médias e região. A presença mais incisiva de grandes empresas agroindustriais multinacionais, associada ao avanço da financeirização, das megacorporações agrícolas e da internacionalização das estratégias empresariais, aprofunda a lógica de uso corporativo do território a partir da redistribuição de fixos e fluxos.
Soma-se a isso a disseminação da agricultura digital (ou 4.0) e da irrigação, que alteram as bases técnicas da produção, seu controle e, potencialmente, a demanda por trabalho e serviços. Observa-se também a desconcentração de centros administrativos das agroindústrias para cidades médias estrategicamente localizadas, conferindo a elas novas funções de comando e controle na geografia do abastecimento global.
Sinais de uma relativa diversificação produtiva, entre os quais a progressão das energias renováveis (energia solar no campo, agroenergias) reposiciona as regiões do agronegócio na transição energética global, para além do discurso agroambiental já consolidado pelo setor. Em contrapartida, a recente flexibilização das normas ambientais, materializada em novas leis de licenciamento federais e estaduais, pode alterar o mercado da prestação de serviços especializados em consultoria ambiental, que estava se fortalecendo como um nicho importante em muitas dessas cidades.
Diante desse novo contexto, emerge um problema de pesquisa crucial: como essas dinâmicas contemporâneas estão reconfigurando os papéis socioeconômicos e territoriais das cidades do agronegócio? Indaga-se, especificamente, sobre seus efeitos na oferta e organização do trabalho em escala nacional, considerando a possível dualização entre uma demanda por profissionais altamente qualificados para operar tecnologias 4.0 e gerir ativos financeirizados, operar no comando regional das agroindústrias, e a precarização ou realocação de trabalhadores menos especializados.
Ademais, é preciso investigar como essas mudanças impactam os padrões de mobilidade e migração dos trabalhadores para e a partir dessas cidades, e em que medida provocam uma reconfiguração na oferta de serviços. Em outros termos: estaríamos diante do surgimento de novos serviços especializados (em energias renováveis, finanças, tecnologia, irrigação, automação, controle) e de uma nova atratividade internacional das regiões / cidades do agronegócio ou, ao contrário, de uma recentralização das funções mais complexas pelas metrópoles, esvaziando o papel antes desempenhado pelas cidades médias?
Em contrapartida, qual seria o circuito inferior da economia que estaria se construindo em espelho dessas evoluções (manutenção básica, trabalhadores precários da informática, da agricultura…). Por fim, tais transformações certamente incidem sobre a dinâmica da migração campo-cidade e inter-estadual, seja pela atração de novos contingentes populacionais para polos de serviços, seja pela alteração da própria natureza do trabalho agrícola.
Definição de variáveis para a pesquisa
Nota-se: trata-se de um ponto de partida, que poderá ser revisado conforme interesses e engajamentos dos pesquisadores envolvidos com o tema.
As variáveis para pesquisa são população; trabalho; estrutura setorial do PIB municipal; evolução da estrutura e densidade empresarial em relação ao agronegócio e serviços associados; localização das funções de comando e controle das grandes empresas (nos três setores de atividades, desde que ligadas ao agronegócio) presentes no território; e análise qualitativa da oferta de serviços (produtos, condições, tipos de pacotes e sua transversalidade).
Os dados genéricos a serem levantados versam sobre: população e migrações; trabalho (repartição setorial e subsetorial, regime de trabalho, qualificação, modalidade presencial ou remota); PIB municipal e setorial; principais produções agropecuárias; estrutura fundiária; características dos estabelecimentos; agroindústrias e capacidade produtiva (volume). Para cada item, pretende-se levantar informações com periodicidade quinquenal ou decenal, desde pelo menos o ano 2000. As fontes de dados serão oficiais e de acesso público, além de bases abertas que permitam uma busca diacrônica e sistemática (IBGE, RAIS, ECONODATA etc.).
Serão necessárias ainda informações mais precisas em uma seleção mais restrita de cidades, sobre empresas de revenda de implementos mecânicos, robótica e automação; empresas de prestação de serviços ambientais, de manutenção, financeiros e informáticos especializados para o agronegócio ou as agroindústrias. Buscar-se-á identificar bases de dados ou formas de constituir séries a respeito deste último item, avaliando a possibilidade de obtenção diacrônica. Duas possibilidades a serem investigadas são: dados não abertos em posse do IBGE e dados do Google (eventualmente pagos). Trabalhos de campo serão necessários para estudar a estrutura e a organização das grandes empresas, bem como a oferta de serviços especializados (incluindo eventuais formas precarizadas, tipos de serviços e perfis das empresas que os ofertam) e a organização do trabalho.
Plano analítico e interpretativo
Se entende-se por plano analítico e interpretativo o posicionamento teórico, este precisa ser definido ainda. Podemos desde já antecipar que deve se situar no prolongamento das pesquisas sobre cidades e regiões do agronegócio realizados no âmbito da RECIME.
A questão seguinte não permite escolher várias cidades. Sugerimos trabalhar com 16 cidades sobre os dados genéricos, algumas delas não inclusas no projeto inicial: MT: Sinop e Rondonópolis, GO: Jataí e Rio Verde, MS: Dourados, BA: Barreiras e Juazeiro, RN: Mossoró, PE: Petrolina, SP: Ribeirão Preto, MG: Uberlândia e Uberaba, PA: Santarém, PR: Londrina, RS: Passo Fundo, SC: Chapecó. Um recorte mais específico será feito para dados aprofundados e campo.
Recorte territorial
Ribeirão Preto
OUTROS TEMAS
Produção











